Acabei de voltar da FENALAW 2025 em São Paulo e preciso compartilhar o que vi por lá. Foram três dias intensos e voltei para Goiânia com uma sensação de validação. Tudo o que a gente vem discutindo internamente nos últimos meses estava lá, acontecendo na prática, em escritórios de todo o Brasil.
A gente já vinha debatendo há algum tempo sobre o caminho que queremos seguir em termos de tecnologia e a FENALAW foi como olhar para o futuro que estamos construindo e ver que ele já está acontecendo em outros lugares.
Quem já foi na Feira sabe que o evento é gigante. No primeiro dia mais de 7 mil pessoas circularam pelos corredores, dezenas de stands de empresas de tecnologia jurídica, palestras acontecendo ao mesmo tempo em várias salas. É muita informação, muito networking, muita novidade.
E não eram só os nerds de tecnologia interessados. Eram sócios, coordenadores de área, advogados sêniores querendo entender como aplicar, melhorar e sair na frente no mercado.
A Validação do Nosso Caminho
Nos últimos meses, no nosso comitê de IA aqui no STG, a gente vem discutindo uma questão fundamental: será que vale a pena investir no desenvolvimento de uma solução própria de IA, ou devemos seguir o caminho mais comum de usar ferramentas prontas do mercado?
É uma decisão difícil. Usar ferramentas prontas é mais rápido, mais barato, menos arriscado, mas desenvolver algo próprio pode nos dar uma diferenciação real no mercado. E a FENALAW me mostrou que essa discussão não é só nossa, é uma encruzilhada enfrentada pelas grandes bancas que buscam um crescimento exponencial.
O que mais me marcou foi perceber que existe uma divisão clara acontecendo no mercado jurídico brasileiro. De um lado, escritórios que estão usando ferramentas genéricas como ChatGPT, Claude ou plataformas de legaltechs. Do outro lado, escritórios que estão indo além e desenvolvendo suas próprias soluções.
Enquanto conversava com membros de grandes escritórios de São Paulo, um case que se destacou foi o do Machado Meyer, que desenvolveu uma ferramenta própria de IA em parceria com a Dataside. Diferentemente de um ChatGPT com cara de escritório, o escritório criou uma solução construída do zero para as necessidades específicas da sua realidade, treinada com os dados deles, integrada nos sistemas deles.
O mais legal é que eles começaram exatamente onde a gente está agora: com um comitê interno discutindo se valia a pena investir em algo próprio, pesando os riscos e as oportunidades, tentando entender se o retorno justificaria o investimento.
Em São Paulo, o mercado de tecnologia jurídica é maduro. Tem consultoria especializada em IA para escritórios, tem lawtechs desenvolvendo soluções customizadas, tem até a OpenAI que abriu escritório lá em agosto. Os grandes escritórios estão investindo pesado em inovação porque sabem que é questão de sobrevivência.
E em Goiás não temos nenhum escritório desenvolvendo IA própria ainda. A gente usa as mesmas ferramentas que qualquer advogado pode acessar, o que significa que não temos diferenciação real.
A OAB-GO fez um movimento interessante ao trazer a plataforma LIVIA gratuitamente para os advogados locais, em parceria com a Forlex. É uma iniciativa bacana para democratizar o acesso à tecnologia, mas é uma ferramenta genérica disponível para todo mundo, o que a impede de ser uma vantagem competitiva para a individualidade dos escritórios.
E foi aí que eu tive certeza de que o que a gente vem discutindo no comitê de IA faz todo sentido. Enquanto em São Paulo os escritórios estão brigando entre si para ver quem tem a melhor IA, em Goiás a gente pode ser pioneiro. Podemos ser o primeiro escritório da região Centro-Oeste a ter uma solução própria, construída para nossas necessidades, focada nas nossas áreas de atuação.
Quando a gente criou o comitê de IA aqui no STG, a ideia era justamente essa: não ficar só usando ferramentas prontas, mas pensar estrategicamente em como a tecnologia pode nos diferenciar no mercado. E depois da FENALAW, ficou ainda mais claro que estamos no caminho certo.
Porque quando você desenvolve uma IA própria, você tem:
- Controle sobre os dados e a segurança da informação dos nossos clientes;
- Customização para nossas necessidades específicas, não uma solução que serve para todo mundo;
- Diferenciação real no mercado: algo que nossos concorrentes não conseguem copiar facilmente;
- Integração com nossos sistemas;
- Evolução contínua baseada no nosso próprio aprendizado e nos nossa base de conhecimento.
É como a diferença entre alugar um apartamento e construir sua própria casa. Alugar é mais rápido e mais barato no curto prazo. Mas construir te dá algo que é seu, que você pode moldar do jeito que quiser, que gera valor no longo prazo.
E o mais importante é que vi na FENALAW que escritórios que fizeram essa aposta estão colhendo resultados concretos. Não é só uma questão de parecer inovador. É uma questão de eficiência operacional, redução de custos, aumento de capacidade de atendimento e atração de clientes maiores.
No STG, a gente já vem desenhando uma abordagem pragmática e focada. A ideia é começar com 2 ou 3 casos de uso bem específicos em áreas onde a gente gasta muito tempo em trabalho repetitivo e onde a IA pode trazer ganho real de eficiência. Por exemplo: análise de contratos.
Depois, a gente treina a ferramenta com nossos próprios dados históricos, integra com nossos sistemas internos, testa com uma equipe piloto. E só então expande para todo o escritório, sempre medindo os resultados e ajustando o que for necessário.
Por Que Agora É o Momento Certo
Uma pesquisa da Bain & Company que foi citada várias vezes na FENALAW mostrou que quase 80% dos executivos brasileiros consideram IA generativa uma prioridade de investimento. Os departamentos jurídicos das grandes empresas estão cobrando que seus escritórios parceiros demonstrem capacidade tecnológica.
E aqui está o ponto: se a gente esperar mais alguns anos, não seremos pioneiros, apenas seguidores. A janela de oportunidade está aberta agora e ela não vai ficar aberta para sempre.
Os escritórios que se moverem primeiro vão ter uma vantagem competitiva que vai ser muito difícil de alcançar depois. E a gente já está se movendo. As discussões já estão acontecendo, a visão estratégica já está clara.