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02 outubro 2026

Sinais de alerta no agronegócio: o que observar

STG Law

Juros elevados, margens comprimidas e acesso restrito ao crédito subsidiado aprofundam a crise no agronegócio. Reconhecer os sinais de alerta com antecedência é decisivo para preservar valor, proteger ativos e garantir a continuidade da atividade rural.

Por Filipe Denki, sócio de Special Situations do STG

O agronegócio brasileiro atravessa um ciclo de pressão financeira que vem se desenhando desde 2020. Não se trata de um movimento pontual, mas da combinação de fatores que, somados, comprimem o caixa de produtores rurais e empresas do setor.

Os juros subiram de forma substancial, enquanto os preços de importantes commodities caíram. No último trimestre, houve algum ajuste nos preços do milho, da soja, do arroz, do algodão e da arroba do boi, mas o custo de produção segue elevado.

O resultado é uma margem de lucro mais apertada. Esse cenário ajuda a explicar o aumento do endividamento no campo e dos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial no agronegócio.

Em 2025, o setor registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial, segundo dados divulgados pela Serasa Experian. No primeiro trimestre de 2026, o setor contabilizou 474 pedidos, volume 21,9% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.

O crédito subsidiado ficou mais restrito

O crédito subsidiado sempre foi um dos pilares do financiamento rural. Apesar dos anúncios recorrentes de ampliação dos recursos do Plano Safra, o acesso efetivo a essas linhas tem se mostrado cada vez mais difícil para grande parte dos produtores.

Sem essa alternativa, a operação passa a depender de linhas bancárias tradicionais, com taxas significativamente superiores às dos recursos controlados pelo Governo Federal.

O custo do capital aumenta justamente quando a margem de produção está mais estreita. Como consequência, o produtor rural pode precisar assumir novas dívidas para manter a operação, financiar a próxima safra ou cumprir compromissos já vencidos.

Esse movimento acelera o endividamento e reduz a capacidade de recuperação do negócio.

Três sinais de alerta no agronegócio

Alguns indicadores ajudam a identificar quando a dificuldade financeira deixa de ser apenas conjuntural e passa a exigir uma resposta estruturada.

1. Novo crédito para quitar dívida anterior

Quando a captação de recursos passa a servir para pagar obrigações já existentes, e não para financiar a produção, a estrutura financeira dá sinais de desequilíbrio.

A contratação de uma nova operação pode aliviar o caixa no curto prazo, mas tende a agravar o problema quando não há geração de receita suficiente para suportar o passivo acumulado.

2. Inadimplência com fornecedores

A dificuldade de honrar compromissos com fornecedores e de adquirir insumos para a próxima safra ou safrinha compromete a continuidade do ciclo produtivo.

Atrasos com fornecedores de sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas e serviços também podem provocar a interrupção de relações comerciais essenciais para a atividade rural.

3. Necessidade recorrente de capital novo

A dependência constante de novos aportes para manter a operação em funcionamento indica que o fluxo de caixa já não sustenta a atividade.

Quando esse padrão se repete, é importante avaliar a causa. O problema pode ser uma dificuldade temporária de liquidez ou já um desequilíbrio estrutural entre receitas, despesas e obrigações financeiras.

Isolados ou combinados, esses sinais podem apontar uma crise de liquidez ou, em estágio mais avançado, de insolvência. Em ambos os casos, é o momento de avaliar mecanismos de reestruturação do endividamento rural.

Quando as saídas imediatas agravam a crise

Diante do aperto de caixa, é comum que o produtor busque soluções isoladas junto a cada credor. Algumas dessas medidas, porém, podem aprofundar a crise financeira.

Reforço e substituição de garantias

As instituições financeiras podem passar a exigir garantias mais robustas, substituindo garantias reais, como a hipoteca da terra ou o penhor, pela alienação fiduciária.

A mudança é relevante. Nos termos do art. 49, § 3º, da Lei nº 11.101/2005, o credor fiduciário, em regra, não se submete aos efeitos da recuperação judicial. Isso reduz a margem de negociação futura do produtor rural.

A análise das garantias oferecidas, portanto, deve fazer parte da estratégia de reestruturação desde os primeiros sinais de dificuldade financeira.

Refinanciamento a taxas ainda maiores

Outra medida recorrente é trocar uma dívida já onerosa por outra com custo superior.

Embora o refinanciamento possa oferecer alívio imediato, ele amplia o passivo quando não resolve a origem do desequilíbrio financeiro.

Venda forçada de patrimônio

A alienação rápida de ativos, feita sob pressão, costuma ocorrer por valores abaixo do mercado.

O produtor reduz sua capacidade econômica e, ainda assim, pode não conseguir quitar integralmente as dívidas. A venda de patrimônio, quando necessária, deve seguir um planejamento e integrar uma estratégia mais ampla de reorganização do passivo.

Identificar esses sinais de alerta no agronegócio com antecedência amplia as opções disponíveis para reorganizar o passivo. Na próxima matéria, mostramos como funciona a recuperação judicial do produtor rural e quando ela pode ser o caminho mais adequado.

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